Ingredientes · 12 min de leitura

Tipos de farinha para massa: 00, sêmola, trigo comum e integral

Como ler a classificação italiana, entender proteína e força e escolher a farinha brasileira certa para cada massa

Sêmola de trigo duro em colher e saquinho
Foto: Horcrux (CC BY 4.0)

Entre os dois ingredientes da massa fresca, a farinha é o que mais confunde quem cozinha em casa. As receitas italianas falam em farina 00, semola rimacinata, grano duro; as embalagens brasileiras falam em tipo 1, tipo 2, especial, para pão, para pizza. Os números não são equivalentes entre os dois países, e o que se chama de sêmola ou semolina por aqui nem sempre é o mesmo produto que um italiano tem em mente.

A equipe PenniZone organizou neste guia o que realmente importa para escolher a farinha: o que significam as classificações oficiais da Itália e do Brasil, a diferença entre trigo mole e trigo duro, o papel da proteína e da força, e quais misturas funcionam melhor para massa de ovos, massa de sêmola e água, nhoque e massas recheadas. No final, há orientações práticas sobre onde encontrar cada farinha e como armazená-la sem perder qualidade.

Trigo mole e trigo duro: duas espécies, dois usos

Tudo começa na espécie de trigo. O trigo mole (Triticum aestivum), chamado de grano tenero na Itália, é o trigo do pão, dos bolos e da farinha branca comum. Seus grãos se quebram em partículas finas e macias, e a farinha resultante é branca e sedosa. O trigo duro (Triticum durum), o grano duro, tem grãos mais vítreos e resistentes, de cor âmbar, que na moagem produzem partículas granulosas e amareladas: a sêmola.

As duas espécies formam glúten, mas de jeitos diferentes. O glúten do trigo mole tende a ser mais elástico e extensível, ideal para massas que precisam ser abertas em lâminas finíssimas, como a massa de ovos. O do trigo duro é mais tenaz e menos elástico, e o grão tem mais pigmentos carotenoides, responsáveis pela cor amarela. É por isso que a massa seca industrial italiana é feita de sêmola de trigo duro e água: o glúten firme segura o formato durante a extrusão, a secagem e o cozimento.

Na prática, a divisão regional da Itália reflete essas espécies. No norte, onde se cultivava trigo mole, a tradição é a massa de ovos aberta em lâmina (tagliatelle, lasanha, tortellini). No sul, terra do trigo duro, predominam as massas de sêmola e água moldadas à mão, como orecchiette, cavatelli e fusilli feitos no ferretto.

A classificação italiana: 00, 0, 1, 2 e integrale

Na Itália, as farinhas de trigo mole são classificadas por lei (o Decreto do Presidente da República nº 187, de 2001) principalmente pelo teor de cinzas, isto é, a quantidade de minerais que sobra quando uma amostra é queimada. Como os minerais se concentram nas camadas externas do grão, o teor de cinzas indica quanto do farelo e do gérmen foi mantido na moagem. Quanto menor o número do tipo, mais refinada e branca é a farinha.

Um ponto frequentemente mal entendido: o número 00 não indica força nem proteína, apenas refinamento. Existem farinhas 00 fracas, próprias para biscoitos, e 00 muito fortes, próprias para panetone. A lei fixa apenas um mínimo de proteína para cada tipo. Para escolher entre duas farinhas 00, é preciso olhar a proteína na embalagem e, quando informado, o índice de força W.

Tipo (Itália)Cinzas máximasProteína mínimaCaracterísticas e uso
000,55%9%A mais refinada e branca; massa de ovos, recheadas, massas delicadas
00,65%11%Pouco menos refinada; pães, pizzas, também serve para massa de ovos
10,80%12%Mais farelo, cor creme, sabor mais marcado; massas rústicas
20,95%12%Semi-integral; pães rústicos e massas de sabor intenso
Integrale1,30% a 1,70%12%Grão inteiro; massas integrais, geralmente em mistura

Proteína, força W e o que isso muda na massa

A proteína é o dado mais útil da embalagem. Ela indica, de forma aproximada, quanto glúten a farinha pode formar. Farinhas entre 9% e 11% de proteína dão massas de ovos macias e fáceis de abrir; entre 11% e 13%, a massa fica mais firme e elástica, o que pode ser bom para fitas largas, mas cansa no rolo; acima de 13%, como nas farinhas para pão de longa fermentação, a massa retrai e fica borrachuda depois de cozida.

O índice W, medido em laboratório com o alveógrafo de Chopin, expressa a força da farinha: quanto trabalho é necessário para deformar uma lâmina de massa até ela romper. Farinhas com W abaixo de 170 são consideradas fracas; entre 170 e 260, médias; entre 260 e 320, fortes; acima disso, muito fortes, como as do tipo Manitoba. Para massa fresca de ovos, uma farinha de força média é a escolha mais equilibrada. Muitas marcas não informam o W; nesse caso, a proteína serve como guia.

Outro índice às vezes impresso é a relação P/L, que compara a tenacidade (resistência) com a extensibilidade. Valores próximos de 0,5 a 0,6 indicam farinha equilibrada, que estica sem rasgar e sem voltar demais. Para a massa caseira, porém, não é preciso se preocupar com esse nível de detalhe: proteína adequada e moagem fina resolvem a maior parte dos casos.

Força (W)Proteína típicaClassificaçãoUso em massas
até 1708% a 10%FracaFunciona para massa de ovos rica em gemas; frágil para recheadas
170 a 26010% a 12%MédiaIdeal para massa de ovos, recheadas e lasanha
260 a 32012% a 13%ForteFitas largas firmes; costuma exigir mais descanso
acima de 32013% ou maisMuito forteNão recomendada para massa fresca; própria para panificação

Sêmola de grano duro e semola rimacinata

A sêmola de trigo duro (semola di grano duro) é o produto da primeira moagem do grão de trigo duro. Tem partículas granulosas, de toque arenoso, e cor amarelo-palha. A legislação italiana exige no mínimo 10,5% de proteína para a sêmola. É usada na massa seca industrial e, em casa, para polvilhar massas frescas, porque seus grãos não são absorvidos facilmente e evitam que as fitas grudem.

A semola rimacinata é a mesma sêmola moída uma segunda vez, até ficar com granulometria parecida com a de uma farinha, mas mantendo a cor amarela e o glúten característico do trigo duro. É a farinha das massas do sul da Itália feitas só com água: orecchiette, cavatelli, trofie, fusilli ao ferretto, além de pães como o de Altamura. A moagem fina permite que a água hidrate as partículas por igual, e a massa fica lisa, compacta e muito resistente ao cozimento.

No Brasil, é preciso atenção ao rótulo. Os termos sêmola e semolina são usados tanto para o produto de trigo duro quanto para farinhas granuladas de trigo comum, vendidas para mingau, empanados e bolos. Para massas, procure as expressões trigo duro, trigo durum ou grano duro na lista de ingredientes. A sêmola grossa funciona para polvilhar e em mistura com farinha fina; para massa só de água, a remoída (rimacinata) dá resultado muito superior.

A farinha brasileira tipo 1 e o que esperar dela

No Brasil, a classificação da farinha de trigo é definida pelo Ministério da Agricultura (Instrução Normativa nº 8, de 2005) em três tipos: tipo 1, tipo 2 e integral. A tipo 1 é a mais refinada, com teor máximo de cinzas de 0,8% e proteína mínima de 7,5%; a tipo 2 admite até 1,4% de cinzas; a integral, até 2,5%. Assim como na Itália, os tipos indicam refinamento, não força. Toda farinha de trigo vendida no país também é enriquecida com ferro e ácido fólico por exigência sanitária, o que não interfere na massa.

A farinha tipo 1 comum de supermercado, na maioria das marcas, traz entre 9% e 11% de proteína. Para descobrir, divida a proteína pela porção indicada na tabela nutricional: 5 g de proteína em 50 g de farinha correspondem a 10%. Essa faixa é muito adequada para massa de ovos, nhoque e massas recheadas. As farinhas rotuladas como especiais para pão ou pizza costumam ser mais fortes; as de bolo, mais fracas.

O que muda em relação a uma boa 00 italiana é principalmente a regularidade: a 00 costuma ter moagem um pouco mais fina e comportamento mais previsível de um lote para outro. Com a farinha nacional, a massa pode pedir um pouco mais ou menos de líquido conforme o pacote. Por isso, a recomendação é sempre reservar um pouco de farinha e ajustar durante a sova, observando a textura em vez de seguir a receita às cegas.

Que farinha usar em cada tipo de massa

A escolha da farinha depende de três coisas: o líquido da massa (ovos ou água), o formato e a textura desejada. Massas de ovos se beneficiam do glúten extensível do trigo mole, que permite lâminas finas. Massas de água pedem o glúten firme do trigo duro, porque não contam com as proteínas do ovo para dar estrutura. Misturas intermediárias combinam as vantagens das duas.

A tabela abaixo resume as combinações que a equipe PenniZone usa com mais frequência. As hidratações são aproximadas e podem variar alguns pontos conforme a farinha e o clima.

Tipo de massaFarinha recomendadaLíquido para 100 g de farinhaObservação
Tagliatelle, fettuccine, tagliolini00 ou tipo 1 brasileira1 ovo grande (55 g)Até 20% de sêmola para fitas mais firmes
Pappardelle para ragu70% tipo 1 + 30% sêmola1 ovo grandeSuperfície mais áspera, segura melhor o molho
Ravioli, tortellini, agnolotti00 ou tipo 1 pura1 ovo grandeSem sêmola, para fechar bem e abrir fino
Lasanha00 ou tipo 11 ovo grandePode ser verde, com espinafre
Orecchiette, cavatelli, trofieSêmola remoída de trigo duro50 a 52 g de água mornaMassa compacta, sem ovos
PiciTipo 1 ou 0, com até 30% de sêmola50 a 55 g de água e um fio de azeiteRolada à mão, grossa
Massa sem ovos para lâmina50% tipo 1 + 50% sêmola remoída48 a 52 g de águaExige descanso mais longo
Nhoque de batataTipo 1 ou 00Batata cozida (cerca de 250 a 300 g de farinha por kg de batata)Usar o mínimo de farinha possível

Farinha integral e outras farinhas

A farinha integral contém o farelo e o gérmen. O farelo absorve mais água e corta os fios de glúten com suas partículas, por isso uma massa 100% integral fica mais quebradiça e difícil de abrir fino. A solução é misturar: de 30% a 50% de integral com farinha branca dá massa de sabor tostado e boa estrutura. Conte com um pouco mais de líquido, entre 5% e 10% a mais, e um descanso de pelo menos 1 hora para o farelo hidratar.

Outras farinhas aparecem em massas regionais. O trigo-sarraceno, que botanicamente não é trigo, é a base dos pizzoccheri da Valtellina, na Lombardia, feitos tradicionalmente com cerca de quatro partes de sarraceno para uma de trigo. A farinha de castanha é usada em massas da Ligúria e da Toscana, sempre misturada com trigo, porque não tem glúten. A espelta (farro) produz massas de sabor adocicado e glúten mais frágil.

Farinhas sem glúten, como as de arroz, milho ou grão-de-bico, não formam a rede elástica necessária para a massa tradicional. É possível fazer massas sem glúten em casa, mas elas exigem misturas específicas com amidos e espessantes, como goma xantana ou psyllium, e se comportam de outro modo: não devem ser tratadas como simples substitutas na mesma receita.

  • Integral (30% a 50% da mistura): fitas largas, pici, massas com legumes e manteiga.
  • Trigo-sarraceno: pizzoccheri, com batata, couve e queijo.
  • Castanha (20% a 30%): fitas ou corzetti com pesto ou cogumelos.
  • Espelta: substitui parte da farinha branca em massas de ovos, com hidratação um pouco menor.

Onde comprar e como armazenar

A farinha tipo 1 está em qualquer supermercado. Farinhas italianas 00 importadas e algumas versões nacionais rotuladas como tipo 00 são encontradas em supermercados maiores, empórios e lojas de produtos italianos. A sêmola de trigo duro, inclusive a remoída, é vendida em empórios, lojas de produtos naturais, atacados de panificação e lojas online; confira sempre a espécie de trigo no rótulo.

Farinhas brancas duram bem: em recipiente fechado, longe do calor e da umidade, mantêm a qualidade até a data de validade, geralmente de 4 a 6 meses depois da fabricação. Integrais e farinhas com gérmen têm gordura, que oxida e fica rançosa com o tempo; o ideal é usá-las em 1 a 3 meses ou guardá-las na geladeira ou no congelador, em pote bem fechado. No clima úmido de boa parte do Brasil, a farinha absorve umidade do ar, o que muda a hidratação da massa e favorece insetos.

Para evitar carunchos e traças, transfira a farinha aberta para potes herméticos de vidro ou plástico e não misture lotes velhos com novos. Se encontrar insetos, descarte o pacote inteiro e limpe o armário. Farinha com cheiro rançoso, azedo ou de mofo também deve ir para o lixo: o defeito aparece no sabor da massa.

FarinhaAmbiente (pote fechado)Geladeira ou freezer
Tipo 1, 00, 0Até a validade (4 a 6 meses)Desnecessário
Sêmola de trigo duroAté a validadeDesnecessário
Integral1 a 3 mesesAté 6 meses
Sarraceno, castanha, espelta integral1 a 2 mesesAté 6 meses

Perguntas frequentes

A farinha 00 é indispensável para massa fresca?

Não. A farinha de trigo tipo 1 brasileira com 9% a 11% de proteína faz ótima massa de ovos. A 00 tende a ser mais regular e fina, o que facilita, mas a diferença no prato é pequena quando a técnica está correta.

Posso usar sêmola para massa de ovos?

Pode, em mistura. Até 20% ou 30% de sêmola deixa a massa mais firme e amarela, boa para fitas largas e ragus. Massa de ovos só com sêmola fica dura de abrir e menos maleável, pouco adequada para recheadas.

Semolina e sêmola são a mesma coisa?

No Brasil, os nomes são usados sem rigor. Pode ser sêmola de trigo duro ou um granulado de trigo comum. Para massas, verifique na lista de ingredientes se o produto é de trigo duro (durum).

Farinha para pão serve para massa?

Não é a melhor escolha. Farinhas fortes, com mais de 12% ou 13% de proteína, produzem massa elástica que retrai no rolo e fica borrachuda depois de cozida. Se for a única disponível, misture com farinha comum e aumente o descanso.

Como saber a porcentagem de proteína da farinha?

Divida os gramas de proteína pela porção da tabela nutricional e multiplique por 100. Se a porção de 50 g tem 5 g de proteína, a farinha tem 10%.

Coloque em prática

Receitas que usam as técnicas deste guia.

Orecchiette · massa fresca

Orecchiette com brócolis e linguiça

Orelhinhas de sêmola e água feitas à mão, com brócolis ramoso, linguiça, alho e pimenta

  • 1 h 50 min
  • Média
  • Azeite e alho

Cavatelli · massa fresca

Cavatelli com ragu de linguiça

Canoinhas de sêmola feitas com dois dedos e um ragu de linguiça e tomate cozido por uma hora

  • 2 h 30 min
  • Média
  • Ragus

Pici · massa fresca

Pici all'aglione

Massa grossa de farinha e água enrolada à mão, com molho de tomate e muito alho cozido devagar

  • 2 h
  • Média
  • Molhos de tomate

Continue aprendendo